Continue a nadar

Quando comecei a fazer quimio, conheci a Talia, uma adolescente americana com câncer, que ficou famosa por seus tutorias de maquiagem e por seu posicionamento sobre a vida. O bordão dela era a sabedoria de um peixinho azul que todo mundo ama.

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            “O que querem que eu faça? Entrar em depressão? Um peixinho me disse: “continue a nadar, continue a nadar.”

Eu já tinha visto Procurando Nemo um milhão de vezes, mas vindo de alguém que passava pelo mesmo que eu, tudo obteve um novo significado.

Quis tanto acreditar nas palavras da Dory, que eu “só” precisava continuar nadando até que as quimios acabassem, entretanto me vi perante a indagação: “como aplicar a sabedoria de um peixe no meu contexto de humano com câncer?”

Quem me vê hoje falando de câncer, não sabe o quão difícil foi o período até o meio das sessões de quimio. Eu tinha crises de pânico, daquelas de ficar gritando e tremendo aparentemente sem motivo por horas a fio, de ter que receber dozes altas de diazepan na veia durante a própria quimio, por que eu queria sair dali a todo custo e estava sem controle nenhum sobre mim mesma. 

Esses episódios aconteceram na minha vida, porque sempre fui metida a mulher maravilha e tinha pretenção de ser um exemplo de padrão de comportamento. A par das mil vezes que me vejo rindo de tamanha inocência e burrice, confesso que tudo que faço pelo projeto Tira o lenço e vai ser feliz, é uma tentativa de canalizar todo esses comportamentos para algo que preste e que isso me ajude a me por no meu real lugar no mundo.

Divagações a parte, hoje (porque é madrugada, ainda não dormi, então o dia ainda não virou) vendo Procurando Dory no cinema e revendo toda essa mensagem motivacional, me vi analisando o  passado e só aí a ficha caiu.

Depois de 2 anos do fim do tratamento percebi que a Talia, a Dory e mais recentemente Francis William, estavam me tentando dizer algo muito simples: continuar a nadar é simplesmente viver um dia após o outro com a esperança de que o futuro será melhor. Pareceu óbvio isso? Também acho, mas de maneira mais ilustrada ainda no meu contexto de quimio, isso me dizia que eu não precisava ficar me forçando a ser grata pela quimio existir, que eu não precisava ficar tirando selfie sorrindo e postar nas redes sociais para mostrar o quão foda eu era por fazer quimio e estar sorrindo, que eu não precisava me sentir feliz por ir fazer quimio, que eu não precisava estar de mente presente durante as sessões, só o corpo bastava. Resumindo: SEJA SINCERO CONSIGO MESMO E ACEITE SEUS LIMITES!  

Agora às 02:47h da manhã e 2 anos sem câncer, a minha visão de tudo mudou! Eu passei de ter muita raiva do câncer, a conviver com ele de maneira civilizada e expressar meus sentimentos com a maior sinceridade possível.

Se um dia a recidiva bater a minha porta, (mas espero realmente que isso não aconteça) vou seguir a Dory, curtir toda a imperfeição do meu ser e cantar pelos corredores do hospital: “continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar,nadar, nadar, para achar a solução, nadar!”

 

 

 

 

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