Me myself and a cancer: episode 11

No início da minha quimioterapia acompanhei o último dia de tratamento de uma jovem senhora. Muita festa, emoção e homenagens lindas dos enfermeiros e médicos. Me emocionei com a cena e desejei mais que tudo nessa vida ser aquela mulher naquele momento. Eu só queria que aquele pesadelo acabasse, mas me disseram que o meu dia chegaria, eu fui paciente e esperei… ele chegou e vai chegar PARA TODO MUNDO. Queria a festa como a dela e muita felicidade a minha volta.

O dia que antecedeu a minha última quimioterapia foi de muita ansiedade e esperança. Já estava com tudo pronto, inclusive meu balão voador em forma de coração, porque o meu não cabia dentro do peito.

No dia anterior, tirei as últimas fotos, escrevi as últimas cartas para o eu futuro e gravei um vídeo mandando um recado especial para ser visto em determinado momento.

O dia nasceu e logo me aprontei com o meu uniforme de ir para quimio (calça de moletom cinza e camiseta aberta por causa do cateter). Arrastei meu coração pela cidade e pelo centro de oncologia, todos viram, aquele era o meu último dia ali. Alguns amigos queridos participaram da festinha que promovi no meu cantinho enquanto os quimioterápicos eram injetados. Conversei muito, fiz uma playlist de músicas felizes e comi muito Lindt, porque era a última quimio, tínhamos que comemorar.

Os médicos vieram se despedir junto com toda a equipe multi profissional que me acompanhou. Cada um me disse palavras belíssimas que me vez ir as lágrimas no primeiro segundo. Só de lembrar da trajetória de apoio e carinho dos enfermeiros e técnicos vou as lágrimas e me encho de emoção. A vida do paciente oncológico é tão sofrida, todavia ao lado de profissionais tão humanos a nossa dor diminui muito.

Depois de quase 12h, as últimas gotinhas daquele santo remédio foram se acabando e eu já estava chorando. Quando a última gota caiu, parece que o chão que havia se aberto no dia que descobri que estava doente começou a se fechar. Não tinha dúvida que aqueles 6 meses estavam minuciosamente planejados para fechar com chave de ouro o meu tratamento e promover o início da única cura possível e verdadeira, a da alma.

Levantei acampamento e fui indo embora. MASSSSS como a vida é cheia de surpresas ao virar o corredor vi um mundarel de gente com cartazes e balões voando no hall do centro de oncologia. Eles não perceberam que eu havia chegado e demoraram uns 3 segundos para gritar “surpresa!” Foi lindo e engraçado. Todos os meus amigos mais próximos estavam ali me surpreendendo na continuação das comemorações. Depois de muitas fotos e sorrisos fui para casa. Seria o fim daquele dia tão abençoado? NÃO! Porque ao abrir a porta de casa havia uma festa linda montada pelos amigos e familiares me esperando! AH, foi inesquecível.

Tinha um mês de curtição até os primeiros exames que me diriam como meu corpo tinha respondido ao tratamento.

Fui para SP para os exames e consultas mais importantes da minha vida. Aproveitei para passar alguns dias com a minha família lá passeando e aproveitando a cidade. Tinha ido ao hospital para uma palestra e acabei indo buscar os exames e não contei a ninguém. Assisti a palestra toda com os exames na mão sem abrir. Eu não tinha coragem de abrir.

A palestra acabou e decidi abrir os envelopes, mas queria um lugar especial no hospital. Fui até um dos jardins que dava de frente para a janela do quarto que fiquei internada em dezembro de 2013, respirei fundo e abri os de sangue, procurando o CA 125 (marcador tumoral), fui as lágrimas o número baixo dele e nessa altura já estava tremendo e chorando muito vendo todos os exames normais. Entretanto, a parte crucial não havia chegado: a tomografia. Daí eu precisei respirar fundo umas três vezes e ir direito no laudo. Só me lembro de abraçar o laudo e de agradecer como nunca havia agradecido a Deus a oportunidade de um bom resultado do tratamento. Olhei fixamente novamente para a janela daquele quarto que há 7 meses havia me recebido e queria voltar no tempo, para ir até lá dizer a moça daquele quarto que a sua caminhada ia ser muito difícil e sofrida, mas cada segundo seria imensamente importante e culminaria naquele momento de tanta emoção e felicidade para dizer: “o câncer está controlado.”

Daí foi #partiufazertudoquequeria.

A primeira parada foi no cinema, depois um rodízio de comida japonesa e não menos importante, um dia de mercado e outro shopping lotados de pessoas indo e vindo e podendo livremente tocar nas coisas e respirar sem máscara.

Desde lá, muitas outras coisas já aconteceram na minha vida, inclusive a realização de um sonho que achei que nunca realizaria. Aos poucos as coisas estão se ajeitando e a vida se encaminhando. Vi colegas de doença se recuperando e outros partindo, mas uma coisa percebi: o tempo passou para todo mundo.

Esse é o fim/começo dessa história, afinal a vida nunca mais voltará a ser como era antes. Agora que a saúde está ok, é hora de reinventar e de resignificar a vida, tentando fazer dela o melhor possível.  O momento atual está sendo cheios de descobertas, dúvidas, angustias e incertezas, pois quando se fica entre a vida e a morte, tudo muda. Mas no fim, como o câncer passou, a vida vai passar e não tenho dúvida que tudo  vai finalmente ficar aonde deveria estar.

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4 comentários sobre “Me myself and a cancer: episode 11

  1. Obrigada,por compartilhar,suas lutas suas vitórias com outras pessoas que estão passando por isso.Eu estou no começo ,meu diagnóstico,foi dia 13 de março desse ano Mielofibrose Primária um cançer no sangue.Mas Creio que Deus cai me curar.Fico feliz por vc e que Deus te abençoe a cada dia da tua vida um abraço.

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  2. Lindo, me emocionei. ..e como desejo o mesmo para minha irmã, ela foi diagnosticada à poucos dias e a família ainda está muito abalada, mas tenho muita fé que tudo vai acabar bem. Minha irmã vai vencer esta batalha, estamos com ela nesta luta!!!

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