Câncer e religião

Para começar, é importante destacar que nada que está contido nesse texto é a verdade absoluta e nem tinha a pretensão de que fosse, mas a maioria das ideias contidas aqui são de um ser humano que viveu  cada um dos passos e das reflexões a respeito dos dois temas para contar. Meu humor “menopáusico” fica a flor da pele com o terrorismo que transformaram a relação de câncer e religião.

Câncer e religião é a união do tabu com a polêmica. Convenhamos que para falar a respeito de ambos, é preciso muito bom-senso e zero misticismo. Pensando nisso, vamos refletir a respeito de algumas falas que envolvem a religião quando o assunto é câncer.

1)”Não desista, Deus vai honrar a sua fé”: A única forma de desistir de ficar melhor é cometendo suicídio. Se a pessoa não se mata ela já está se esforçando muito, porque conviver com o câncer é MUITO difícil. E Deus, não precisa honrar fé nenhuma. A fé é sentimento humano, não divino. Esta barganha relacionado a “cura” é a parte mais triste na minha opinião.

2)”Confie em Deus/Jesus.” O que querem dizer com isso no fim das contas? O papel da religião é ligar o homem a Deus e confiar por si só Nele não vai fazer qualquer diferença, mas confiar e agir aí sim a coisa anda. Tem umas antas (desculpa, mas não encontrei outro nome) que abandonam o tratamento e ficam em casa rezando pedindo a cura de uma doença tão complexa. Criatura, se Deus permitiu aos homens que existisse a medicina, era para que será?

3)”Nada para Deus é impossível”. Essa frase é clássica e contém uma verdade e uma mentira. Se Deus é a inteligência suprema do Universo, realmente nada é impossível para Ele, entretanto o Universo tem leis que ele mesmo criou… na Terra é assim, a junção de imunidade baixa e falta de cuidados é igual a infecção e você pode chorar e chiar que vai ser assim sempre.

4)”Câncer é punição divina”. Essa é a mais triste. Os motivos pelos quais o câncer acomete as pessoas em idades diversas e improváveis está fora dos nossos domínios. A ciência atual explica os casos de câncer depois dos 50, mas aos 8, 15 ou 25 anos, se não for de caráter genético, eles dizem que foi algum motivo desconhecido que fez com que a doença aparecesse. Aí poderiam achar a brecha para a “punição divina”, mas que na minha opinião não faz nenhum sentido, já que os que dizem isso têm religião, o que me choca ainda mais. Uma religião que professa um Deus que permite que o câncer apareça sem um motivo na vida de alguém, é lugar de quem gosta de sofrer.

5)”Deus me curou”. As histórias de desaparecimento de tumores da noite para o dia e de melhoras inesperadas são reais e também acredito que sejam, mas o número de casos das pessoas que com perseverança fizeram o tratamento e ficaram com a doença controlada, é bem maior. Portanto, se souber que 2+2 são 4, vai saber também que a cura do câncer, do ponto de vista físico, não existe e sim só seu tratamento. Eu não fui curada, estou com a doença controlada. No fim, a única cura real e possível, é a da alma.

 Mas afinal, sendo o câncer algo tão doido e difícil, porque Deus permite? Para uma resposta certa pergunte diretamente a Ele…. mas se me permitem dar um pitaco é pelo simples fato que os aprendizados feitos durante a doença são inevitáveis e não sei se poderiam ser feitos efetivamente de outra maneira, seja para o paciente adulto ou para os pais do paciente infantil. Se tiver que ter câncer você vai ter,  o mesmo digo a respeito de uma recidiva, e ainda aí há bondade divina, por que nada pode ser ruim que não piore. Sabe lá qual era na realidade o tamanho da dor que íamos passar e Deus a suaviza na medida das nossas forças.

Só porque é preciso fazer aprendizados dolorosos na vida, isso não tem qualquer relação com estar super doente e ficar dando risada como um bobo e mentir para si e para o mundo dizendo “obriga Senhor pela dor. Ninguém em sã consciência pode achar maravilhoso ter câncer, mas já dizia o ditado “Tá no inferno, abraça o capeta”. E foi isso que fiz, não eu não abracei a criatura mítica do diabo, mas já que estava doente, resolvi fazer daquilo o melhor que podia.  E para os puritanos, o ditado “quem está na chuva é para se molhar” não se aplica aqui, apesar de ter a mesma ideia, porque a chuva é muito boa e o câncer não… então sem “UI, ela fala do diabo, que horror!”, please.

Outro ponto que precisamos tratar é porque raios há tanta balburdia na religião quando o assunto é câncer? Ninguém fica choramigando para Jesus que tem diabetes ou osteoporose antes da idade prevista! A primeira mata e a segunda é super séria, então me expliquem o que acontece porque eu não entendo.

                                                                                                                                       ———–

Fui criada em berço espírita e cristão e mesmo assim fiquei putíssima quando descobri que tinha um câncer de ovário que já havia se espalhado e estava em metástase com apenas 21 anos. Engraçado como não internalizamos o que aprendemos com nossas religiões e vivemos utilizando a fé para nos beneficiar. O caso clássico é pensar: ” Aonde estava Deus na hora que eu fiquei doente? Espera aí, então você passa uma vida adorando um Deus que te serve apenas nas horas boas, porque quando o bicho pega você pergunta aonde ele está?! Missing the point in here. Com o câncer você entende de verdade verdadeira que Deus está em todo lugar, na mão do enfermeiro amável, na oportunidade de vencer na justiça o direito de ser tratada no maior e melhor câncer center da América latina, em sair de uma internação no valor de 300 mil reais e pagar apenas o shampoo que usaram, no cirurgião que não te cobrou nenhum real pelo seu trabalho, no amor dos amigos e no fato da doença ter te feito conhecer as pessoas mais incríveis da sua vida.

Se está revoltado com Deus e o Universo pelo que está acontecendo contigo, tente pensar dessa forma. Se revoltar é normal, eu mesmo me revoltei e fiquei 15 dias consecutivos chorando e querendo sumir, mas se depois de 15, 30 ou anos você parar de chorar e olhar o outro lado da moeda, já avançou muito.

Pessoalmente a figura do Cristo foi muito importante na minha trajetória, porque sabia que não estava sozinha. Sabia que ele não abadona nenhum de nós e está presente indiretamente através dos trabalhadores do bem e do nosso protetor. A doutrina de humildade pregada por ele me ajudou a descer do salto e ver que todos estamos sujeitos a ficar doente e se olharmos ao lado veremos casos muito mais sérios que o nosso, me fazendo refletir mais precisamente que o meu sofrimento não era maior que o de ninguém, mas também não era o menor.

Se os ataques as minhas crenças religiosas, enquanto estava com a doença rolando, fossem convertidas em dinheiro, teria enriquecido na desgraça. Por isso que o bom-senso é uma das minhas virtudes favoritas nas pessoas, porque evita que elas virem para alguém que está passando por um sofrimento atroz e a machuque ainda mais.

A grande conclusão, se é que há uma, é que não acredito que tenhamos uma compreensão real dessa Inteligência criadora e mantenedora do Universo que chamamos de Deus. Espero que a religião evolua e nos ajude a crescer e ser melhores pessoas, relembrando que antes de atirar a pedra questionemos se estamos livres de todo “pecado”.

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