Me, myself and a cancer: episode 9

Relacionamentos são complexos e quando tem um câncer no meio, vira um balaio de gato. Muitos duram pouco, mas são suficientes para te machucar pelo resto da vida. Sem vilões ou mocinhos, os relacionamentos humanos são uma mistura de doidos, que acham outros doidos para tentar fazer a jossa funcionar. No meio do caminho, a gente machuca e se machuca várias vezes, pois necessita de algo que o outro não pode e nem sabe como oferecer. Chega uma hora que você tem certeza que o mundo está acabando mesmo e que ninguém presta, nem você. Depois que algumas coisas passam, só sobram memórias doloridas. Você pergunta o que fez errado, e mesmo fazendo o balanço de suas qualidades e defeitos não consegue ver o que tem de tão errado com você. As pessoas partem de nossas vidas de uma hora para outra, sem uma lógica que possamos entender o que se passa na cabeça delas. Infelizmente, caro leitor, alguns que amamos partem nosso coração em pedaços no nosso momento mais frágil, foi assim que abril começou… cheio de mudanças, decepções, tristeza, mas também com força para recolher o que sobrou de mim e seguir. Entendi que não estava imune a “filhadaputagens” porque estava doente, aprendi ainda que se na hora da doença a pessoa cai fora, ela nunca mais vai voltar. Estar ao lado de uma pessoa doente é difícil, mas não impossível. Então querida, se nos momentos mais tristes da sua vida o cabra ficou e acrescentou, case-se, porque esse valeu a pena, caso contrário arruma a bagagem e segue.

Aliás, seguir em frente é de extrema importância, mas a gente só aprende na prática e não adianta tecer diversos comentários sobre isso, porque só se aprende vivendo mesmo.

De abril ao final de junho eu comecei a contagem regressiva para o fim da primeira leva de quimios. Não precisava mais receber transfusões de sangue e aquelas injeções chatinhas para imunidade. Cheguei a emagrecer uns 5kg e ficar com o peso que eu sempre quis na vida, depois,  inchei e virei um balão #alegriadegordodurapouco. Uma vez ou outra conseguia comer com um pouco de mais facilidade e até me arriscar no fogão outras vezes. Cozinhava pelo prazer, mas não comia.

Quando conseguia sentar a mesa,  só observava a quantidade e rapidez que as pessoas comem. Era uma mistura de inveja com incômodo.

Nessa época, acabei percebendo que era realmente possível viver comendo pouco, se não se tem muitas atividades. Aprendi a comer mais devagar e com calma. Em épocas mais difíceis a nutricionista passou um suplemento de ” gente doente”, como eu o chamava, que só de lembrar do cheiro me embrulha o estômago, contudo, era imprescindível que eu tomasse por causa das vitaminas.

Nessa época minha mãe inventou uma técnica de alimentação, que foi MUITO importante. Ela usava aqueles potinhos de vidro que vem cereja ou champignon e os transformou nos meus pratos de refeições. Ela usava de 2 a 4 em uma bandeja em cada vez que me empurrava comida (porque eu só fugia dela), com fruta picada, bolacha salgada, gelatina, yakult e coisas do tipo. Por serem bem pequenos, me sentia comendo muito, porque tinha que dar conta de 3 ou 4 potinhos. Essa ilusão me fazia sentir bem e com esperança que eu ia voltar a comer um dia. Se colocar o que eu comia em um prato só, era quase nada, mas para mim era muito.

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A doença gera alguns conflitos internos, mesmo sem notar. Entre abril e maio foram recorrentes as crises de ansiedade e pânico. Calmantes que meio comprido derrubam um elefante, não me faziam cócegas. Aumentaram a dose para dois comprimidos inteiros nos momentos de crise durante as sessões de quimio e dava um soninho só. Tentaram calmante na veia e não adiantava muito. Nessa hora a terapia e o psiquiatra entraram em ação, porque mesmo querendo sair correndo da quimioterapia, eu não podia, ou era aquilo ou a morte.

A aceitação da sua condição demora muito tempo. No início você se revolta, depois entende, mas não aceita, por último você fica tipo “tá no inferno, então abraça o capeta” e aprende que sua vida é assim agora. Você sofre quando está prostrada em uma cama enquanto todo mundo viaja, trabalha, se diverte e etc. Vai sofrer quando todas as amigas ficarem grávidas, menos você. Vai sofrer porque morre de calor, não emagrece e sempre terá o medo de ter câncer de novo. Mas querem saber da verdade nua e crua?! O QUE EU POSSO FAZER? Nada, além de aceitar “por que daí dói menos”. Quando o assunto é câncer não se tem escolha. Não é possível comprar outro corpo e deixar de ter uma doença, ela vai estar sempre com você.

Falando em aceitação, aceitar a careca foi de boa, menos no inverno. No período de mais frio eu odiei ser careca, porque o frio nas orelhas não era desse mundo. A solução? Isso aí:

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Um acessório versátil que me deixava igual uma muçulmana em casa. Para sair, colocava um gorro de lã e um turbante por cima, porque acho gorro uma coisa horrível.

Nessa época, conseguia receber meus amigos em casa e ir na casa deles ocasionalmente. Mais uma prova que uma hora as coisas melhoram. Para espantar as infecções, bactérias e vírus, tinham que lavar bem as mãos, usar álcool e etc. Ficávamos em locais arejados e nunca muito perto uns dos outros. Se alguém estava doente  ou com alguém do convívio diário gripado, a pessoa era banida da reunião até ficar tudo bem.

Por conta da imunidade não podia comer comidas cruas fora de casa, muito menos comidas que ficavam expostas em buffets por muito tempo. Sofri em partes por não poder comer sushi, por exemplo, tinha vontade da ideia que eu tinha de sushi, porque se visse um na minha frente, morria de nojo. Lugares fechados tipo cinema, nem pensar! Ir ao shopping era bem difícil, mas quando queria espairecer, ia as 10 da manhã ficava um pouquinho e ia embora, armada de álcool em gel e máscara. Exagero tudo isso? Não mesmo! Eu não peguei nem gripe durante as quimios, valeu a pena cada atitude de prevenção. Depois de estar recuperada lá por julho tive infecção, dor de garganta e mil outras coisas, mas ia para o hospital feliz da vida, porque meu corpo tinha forças para lutar contra tudooo aquilo!

Voltando lá em maio dei a minha primeira entrevista para o jornal local. Me senti uma celebridade, mas daí lembrei que era para falar de câncer, daí abaixei a bola. A entrevista foi em uma época de mais entendimento da doença, o que chega para todo mundo um dia. Relendo-a, parece que tirei de letra a doença… o que não é verdade. Aliás, se alguém é diagnosticado com câncer já em metástase  e tira de letra rápido, deve ser o super man!

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Nossa, a história não acaba nunca! Esperem os próximos capítulos. (:

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