Me, myself and a cancer: episode 8

Imaginem um muambeiro voltando do Paraguai. A mudança que eu levava para as sessões de quimio era algo bem parecido. Imagina gente, 12 horas em uma cama, com mil fios em mim sem poder levantar… eu precisava de todo um aparato! Bolsa térmica com as poucas coisas que conseguia comer, minha garrafa de água inseparável, revistas, livros, palavra cruzada, tablet, meia e etc….

No dia que inaugurei o meu cantinho, posicionei o tablet e pensei: “a internet vai me salvar aqui”. Redes disponíveis: “médicos” BLOQUEADA!

Mas como eu não desisto fácil e me dei muito bem com os enfermeiros, algumas sessões depois, eles me confidenciaram a senha. Mas sabem como é, os dias passaram e via a galera chateada sem a senha e fui passando na surdina. Resultado? Era tanta gente usando que ela nem funcionava mais! Daí como eu sou barraqueira mesmo, perguntei como eu falava com o responsável para fazer reclamações que eu tinha muita coisa para falar.

Antes do resto dessa história, já digo que ter câncer não nos exime de nossas responsabilidades sociais e nem nos muda, a ponto de parar de ligar para o nosso conforto e do outro. Isso dito, continuemos.

Entregaram-me uma ficha que passaria por uma avaliação e que retornariam a respeito do assunto. Mesmo chateada com a burocracia, preenchi a primeira reclamação. Digo primeira, porque daí eu peguei gosto na coisa, afinal pagar rios de dinheiro ao plano de saúde e não ter coisas simples no centro de oncologia era pácaba. Perdi a conta de quantas mandei reclamando da falta de wifi, falta de uma cadeira decente para os acompanhantes, melhoria na comida para quem ficava o dia todo, mais manutenção nas bombas de infusão, melhorias na clínica de fisioterapia, abertura de novos protocolos de fisio para os pacientes oncológicos, contratação de mais enfermeiros, porque era tanto paciente que eles não davam conta e etc.

Reclamei tanto, que o diretor geral do plano de saúde bateu lá no meu cantinho para fazer uma reunião comigo para “fechar propostas de melhoria”. Detalhe: ele deu uma ordem ao seu secretário para ir tomando nota e no fim das contas, em 6 meses, só saiu  do papel o wifi e acho que 1 novo técnico de enfermagem. Mas gente, sendo sincera, ele foi lá para me intimidar a parar de encher a mesa dele de papel e lembrá-lo que ele ganha dinheiro extra nas custas de gente doente. Mais recentemente, dizem as más línguas, que tem uma ordem de uma galera lá, para que me deem alguns privilégios para que eu pare de “dar problema”. Estou contando isso para que vejam, que a corrupção está espalhada até aonde deveriam cuidar das pessoas doentes. Portanto, se alguns de nós não derem a cara a bater para fazer a coisa acontecer, nada vai sair do papel.

Momento de revolta superado….

Tive todos os efeitos colaterais da quimioterapia, para o meu infortúnio, enquanto via gente saindo da quimio e indo tomar café da tarde na padaria, comendo normalmente, não tendo náusea, sem vomitar a alma, sem dores de cabeça fortes, sem aquele gosto de prego na boca, com as unhas sem estarem podres, com o intestino funcionando, com as plaquetas e leucócitos baixos, mas aceitáveis, sem mudanças no sistema nervoso como crise de ansiedade e pânico… olha eu estava ferrada mesmo, ferrada a um ponto de mandar o cabelo para pqp, pegar a máquina e raspar para parar de sujar a minha casa com aquele cabelo morto. Sim, eu reclamei de tudo isso, mas até de reclamar cansei.

Na quimio tem isso, tem gente que passa super mal e outras que não tem nada! Incrível como o corpo de cada um é diferente. Graças ao esforço da ciência temos a medicina e um aparato de medicamentos que ajudam a tornar os efeitos colaterais, um tiquinho menos insuportáveis.

Até a nona ou décima aplicação eu quase levei minha cama e travesseiro para a emergência do plano de saúde e para o HC, de tanto que o tratamento me judiou. Depois disso eu só precisava ir uma vez na semana o/

Mas sabem o que é maravilhoso de tudo isso? PASSOU!!!!!!!!! e vai passar para todo mundo. Hoje, não me dói mais lembrar disso e me sinto feliz por poder compartilhar a história com alguém que está em tratamento ou que está acompanhando um ente querido e repito o que foi me dito um dia “A DOR NÃO É ETERNA!”. Ela pode durar um bom tempo, mas VAI ACABAR! E acabar a dor é muitas vezes não continuar aqui na Terra. Querem exemplo melhor que a Karina, do blog “Chic by Karina”?! Brasileira que morava nos EUA e com apenas 15 anos, faleceu em 2014 após um sofrimento atroz, mas com dignidade, maturidade, uma beleza estonteante, uma família linda e com uma aceitação de sua condição que metade das pessoas não tem e vão me dizer que ela “perdeu a luta contra o câncer”? Portanto, meninos e meninas, homens e mulheres essa ditadura que diz que vencer o câncer é sobreviver a ele, é no mínimo irreal, na minha opinião. Primeiro, porque o câncer não é uma competição de quem ganha ou perde. Segundo, porque a pressão de mostrar que é o mais forte e mais corajoso chegou a quem está gravemente doente.

Meu pavio agora é curto e não dou a mínima para essas falas de quem não tem IDEIA do que é ter câncer. Os companheiros e companheiras que já tiveram câncer é que tem o poder de dizer seus pareceres a respeito de tudo que se relaciona a doença. Alguns, até pensam muito diferente de mim, mas merecem o nosso tempo e compreensão em seus opiniões, agora quem nunca vivenciou isso, I’m sorry honey, volte para sua casinha em silêncio.

Ufa! Momento de humor alterado 2 passado, continuemos os “causos” desse período.

Lá pela metade da quimio, consegui ir buscar meu diploma na Universidade e passar pelo momento mais cômico de 2014. Aos que não sabem eu vivenciei com orgulho a minha careca e a tornei parte do “estilo”, tanto que chegando no departamento responsável pelos diplomas, escutei: “QUAL O NÚMERO DE MÁQUINA QUE VOCÊ USA HEIN?” Sim, sim…me perguntaram isso. A minha cara foi tipo:

100329-wtf-girl-ahs-coven-finale-reac-dcoa

e depois:

wtf-meme

Então respondi: “zero?!” Meio confusa até de qual deveria ser minha resposta. Ele me olhou sério, tirou a boina e começou: “Eu estou usando a 2, mas veja (e foi me mostrando a cabeça) não acho que é a melhor para mim… tipo, não me favorece, sabe?!.” Segurando o riso, porque ele estava REALMENTE falando sério, me contive e disse: “Está ótimo assim, não precisa mudar!” Ele agradeceu o comentário e eu sai com o meu diploma e uma história engraçada pelo resto da vida. Como esse, foram muitos os momentos engraçados que teremos o prazer de contar. Até o próximo episódio!

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