Me, myself and a cancer: episode 7

Pela milionésima vez pensei: “agora eu morro”. Com a pressão no peito, tive um fechamento de glote e estava sufocando. Não lutei, me entreguei ao momento que seria o fim dessa vida. Mas, pela milionésima vez eu não morri. Me reanimaram ou sei lá o que fizeram comigo, só sei que vivi para receber a quimio até o fim. A partir desse dia minha gente, o bagulho ficou doido e o caldo entornou!  Vivi para a fase mais triste, difícil, sofrida e penosa da minha vida. Eu desejei morrer muitas vezes, eu só queria que alguém viesse até mim e me livrasse daquele corpo moribundo e doente. Por outro lado, desejei viver muito também, para fazer meu mestrado sonhado, estar junto com os que amo, aprender e viajar. No fim, são altos e baixos que se passa com o câncer, mas quem tem o direito de julgar nossas mudanças nessa fase não é mesmo?!

Nesse meio tempo de quimio até recebi um título de honra… o de paciente “mais especial do centro de oncologia”. Podem dizer “nossaaaaaaaa que especial Amanda!” #sóquenão… eu recebi o título meu povo, porque TODAS as coisas que acontecem raramente com alguém aconteciam comigo, como por exemplo, vomitar 16 vezes em 30min, ter alergia a única coisa que podia salvar minha vida, ter uma deficiência na medula e acrescentando, mais recentemente, a mudança brusca na cor do cabelo para um tom ruivo…”the zuera never ends” na minha vida.

A minha única chance de fazer quimio, já que eu tinha alergia aos quimioterápicos, era tentar um processo que se chama “dessensibilização”. Nesse processo, a quimio entra no organismo super diluída e em uma velocidade super lenta, portanto, enquanto as pessoas fazem quimio em 1h30-2h a minha demorava 12h. Se mesmo assim a alergia permanecesse, eu não poderia fazer quimioterapia e teria que esperar o câncer me matar sentadinha em casa.

Realizei o procedimento na UTI do Hospital do câncer (olha eu na UTI de novo gente!) em uma dia que a UTI estava lotada, era o dia mais quente dos últimos anos em Maringá, uma senhora morrendo ao meu lado e o ar condicionado quebrado. Foram 12h de um sofrimento atroz, pelo calor, pelo medo de sufocar de novo e pelo sofrimento dos outros pacientes ao meu lado. Eu estava mal, mas tinha gente ali que a família nem ia visitar e que nunca tiveram a oportunidade de serem cuidados em uma UTI de qualidade… sofriam com a falta de estrutura, aparelhagem e limpeza do local, decidi então, sofrer em silêncio.

Fiquei mais de 12h acordada e observando tudo que acontecia. Vi idoso pelado por uma vida! Acompanhei os “vôzinhos”  batendo boca com enfermeiros, a limpeza quase inexistente do local e a dedicação da médica que me viu tremendo, em uma crise de ansiedade, e ficou alguns minutos passando álcool em mim para refrescar a pele e dizer por que eu não precisava sentir medo de sufocar.  Havia ainda, uma tv de 14 polegas, velha e com chiado ligada na globo 24h. Peguei um trauminha depois disso, só de ver ou passar perto de uma tv com chiado ou na globo, já me transporto de volta a aquela UTI. Sem dramatização gente, em momentos de dor desenvolvemos vários traumas que precisam ser trabalhados.

Lá pelas tantas, vejo ao longe, o médico que fez a segunda cirurgia e foi contra a minha ida para SP, dizendo que não era necessária a retirada do útero e do outro ovário, que só a quimioterapia era suficiente. Ele se aproximou, com sua empáfia característica, e perguntou o que eu fazia ali. Contei toda a novela e notei sua cara de surpresa e contrariedade quando disse: “o senhor fez residência lá e sabe do potencial deles, eles disseram que sem a retirada dos linfos com metástase, eu provavelmente não iria sobreviver só com a quimioterapia.” Para bom entendedor, meia palavra basta né gente! Ele continuou com aquela cara de bunda dele e pediu para ver as novas incisões, mostrei e disse, com a ironia que habita em mim: “eles colocaram um dreno e dessa vez (diferente de quando ele me operou) eu não tive que acordar banhada de sangue ou urrar de dor dias.” O resto da minha grosseria, prefiro deixar em off. Ele deve ter metido a mão na minha cara na cabeça dele… mas disse “então tá bom, boa sorte aí.” E se foi.

 Lá pelas 23h30 um anjo, colega do meu cirurgião de SP, venho bater um papo comigo e disse a coisa mais linda daquele dia: “era melhor que passasse a noite na UTI, mas vou te mandar para o quarto porque lá tem ar condicionado.” Por fim, o procedimento foi um sucesso e assim ficou meu protocolo: high dose (dose alta), semanal, com 18 aplicações de 12 h cada uma.

Voltei ao centro de oncologia e ganhei um cantinho individual, para passar as lindas 12 horas toda segunda feira.

Anúncios

Um comentário sobre “Me, myself and a cancer: episode 7

  1. Sabe que eu tenha 26 anos e ano passado descobri um linfoma NH. Até ai tudo bem se não fosse um do tipo ósseo…3% dos casos. Fiz R-CHOP e também tinha alergia ao Rituximabe….mesma coisa…tomando quimio em doses lentas…por fim vomitava umas 30 vezes por dia….nem agua parava na minha barriga (apesar de eu engordar hahahah). Hoje tudo passou….vai fazer um ano! Amo seu blog demais!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s