Me, myself and a cancer: episode 6

Foram 10 dias no A.C Camargo resort hotel. Me deram de comer depois de uns 4 dias, e ainda consigo lembrar como foi maravilhosa aquela refeição, porque convenhamos, 3 dias sem comer na UTI e 1 dia e meio em dieta de prova (vulgarmente conhecida como água, chá e gelatina) eu estava doida por comida de gente. Ainda me lembro bem, venho frango desfiado, com cheiro verde, purê, um pudim e suco de pêssego, tudo delicioso!

Aliás, não me canso de agradecer (e sei que terei a oportunidade de devolver tudo de bom que recebi) a Deus, meus pais e os advogados que conseguiram que o plano de saúde pagasse o meu tratamento  em um hospital com um oncologista ginecológico e que por “conhecidência”, tinha enfermeiros fantásticos, uma estrutura de primeiro mundo e refeições melhores e mais bem apresentadas que de muitos restaurantes por aí.

Mas nem tudo foi festa, claro, pois a vida tem dessas. Presenciei histórias de muito sofrimento nas minhas idas a sala de convivência do meu andar. A mais marcante talvez, foi a de dois irmãos que receberam, a poucos metros de mim, a notícia de que o câncer de sua irmã não permitiria que ela vivesse mais do que poucos meses, por isso os médicos a abriram e fecharam, entregando-a para a família para que cuidassem dela em seus últimos momentos na Terra.

Eu, ao contrário, desfrutava de uma recuperação boa, com poucas complicações e todos os dias recebia a visita dos meus primos para rirmos e agitarmos os corredores do hospital, o que me ajudou demaisssss a segurar o tranco.

Meus dias eram preenchidos com caminhadas pelos corredores com a  fisio, a minha Chanel e a minha Louis Vuitton, vulgarmente conhecidas como a bolsa da sonda urinária e a do dreno. Também ficava batendo papo com as enfermeiras que amavam gatos, assistindo GNT com a minha mãe ( único canal que ela gosta) e conversando com o meu namorado na época.

Eu jamais teria conseguido ficar em paz no hospital sem o apoio dele a longa distância. Ele, era o único que me fazia companhia nas madrugadas sem dormir, porque ambos éramos noturnos demais para dormir a noite. Estar apaixonada preenchia o meu coração e suavizava as minhas dores. Sempre me paguei de machona no amor, mas eu chorava de saudade dele igual uma garotinha boba. Eu podia ter câncer, estar operada e lascada na vida, mas eu tinha mais alguém que gostava muito de mim, alguém que eu reencontrei aos 45 do segundo tempo e que fez toda a diferença naquele momento.

Mas o que deu a cirurgia Amanda?! Bom, a coisa era feia. Útero e o ovário direito tomados pela doença, assim como partes do peritônio e da bexiga, isso porque tinham me operado 1 mês e pouco antes e tirado já vários implantes. A biopsia tinha 14 páginas de tanta coisa que tiraram de lá. Biopsiaram toda a cavidade abdominal e até acharam  um “tumor” no intestino que foi analisado e visto que era só um grão de feijão atolado lá ISDFISODJFOISDJFOISDJFOISDJF

A grosso modo fiquei sem útero, ovário, apêndice e linfos pélvicos, já que estes tinham metástase, caracterizando meu câncer como 3 A, igual do Walter de breaking bad. Assim sendo, eu ia fazer quimio pelos próximos 6 meses no mínimo.

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Causando inveja nas inimigas com a minha Louis Vuitton a mostra

Para tristeza geral tive uma pequena infecção perto do umbigo e entraram com antibióticos que me dificultavam a respiração sendo necessário aquele oxigênio de caninho no nariz. Entretanto, os dias passaram, trocaram o remédio, tiraram todos os acessos, inclusive o do pescoço (esse foi lascado, doeu pacas), tiraram a sonda urinária junto com um pedaço da minha pele na retirada do adesivo que a segurava (tem até cicatriz para provar isso!) e me deram alta junto com 18 injeções na barriga que tinha que tomar nos próximos dias.

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Eu exibindo a mordida que o Damon me deu #exvampirediariesfan

Sai do hospital e fui curtir São Paulo. Não isso não foi força de expressão, foi real. Como a minha recuperação foi boa, eu me sentia super bem e, apesar de me locomover com muita dificuldade, queria curtir essa cidade que eu amo muito ao lado das minhas primas do coração. É minha gente, fazia uns 11 dias que haviam me aberto inteira e eu estava do outro lado de SP comendo um lanche monstro no local aonde foi criado o primeiro bauru, além de ir comprar um óculos novo e ser motivo de piada eterna na família por passear de carrinho elétrico no Sam’s club. Fomos doidas, eu sei, mas naquele momento era só alegria.

No dia 24 de dezembro deixaram eu pegar o aivão e voltar para casa. Passamos o natal vendo tv e comendo bolacha, porque apesar do sucesso da cirurgia, eu ainda tinha câncer.

2014 começou a todo vapor. Dia 2 de janeiro eu estava de volta ao hospital para implantar o cateter (essa história está nesse post). Aí que fui perceber o quanto eu fui sortuda e abençoada, pois me colocaram no quarto que era para eu ter ficado internada na cirurgia de dezembro e ele não chegava aos pés da minha suite presidencial. Até hoje eu sou grata por ter podido ter todo o conforto em um momento tão delicado, além de poder me tratar em um hospital que ganhou do Canadá em pesquisa sobre o câncer.

Voltei para casa e tive umas duas semanas para entender como seria minha vida durante os próximos 6 meses. Dia 20 de janeiro eu fui fazer a minha primeira quimio. Estava com muitoooooo medo, por talvez internamente já saber que eu ia sofrer muito nesse processo.

Cheguei no centro de oncologia, me sentei na poltrona, eles puncionaram o cateter e dá-lhe anti alérgico com aquela sensação horrível de moleza. Na hora em que o quimioterápico foi colocado eu estava internamente com muito medo, e por mais que soubesse que eu tinha câncer, a minha ficha caia ainda mais a cada parte do tratamento que se iniciava. Poucos segundos depois que o remédio iniciou, no meio da minha conversa sobre turbantes com senhora ao meu lado, senti uma pressão muito grande no peito e só deu tempo de dizer: “chamem o enfermeiro”.

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