Me, myself and a cancer: episode 5

O últimos momentos antes da morte são confusos e tristes, pelo menos foram assim os que eu considerei como últimos enquanto estava viva. A caminho do centro cirúrgico pensei em tudo que a minha vida foi e o quanto doía ter que ficar longe dos que amava, mesmo que por algum tempo. Eu não queria deixar minha família, meus amigos e o cara por quem eu estava completamente apaixonada para trás. Ao mesmo tempo que eu estava pronta para morrer, eu não queria morrer.

Muitas horas se passaram, e  quando eu tive um início de consciência, não sabia se estava viva ou morta. Percebi um homem que cuidava de mim e que me chamava pelo nome. Quando liguei o 1 no 2, estava com algo que ia do meu nariz, passava pela garganta e ia até sei lá aonde. Entrei em pânico, eu estava entubada e acordada como eu a muito temia. Meu primeiro ímpeto foi rezar, mas eu não sabia o que dizer, estava em choque…então o pai nosso foi recitado na minha mente duas vezes, após isso apaguei outra vez.

O que eu me lembro depois disso? Gargalhadas e gargalhadas pelos corredores do hospital. Depois da sala de recuperação, foram me conduzindo a outro local e totalmente trabalhada nas “dorrrrrgas” eu dizia igual um bêbado “eu tô bemmmm!” e riaaaaaa e depois perguntava: “Eu morri? Você é meu protetor?” Me disseram então que eu estava viva e eu respondi “aham, claudia”. E insistiram que eu estava viva viva, tinha sobrevivido a cirurgia. Por um segundo fiquei brava pensando “puta merda, toda aquela preparação para morrer e eu não morri?! Tá de brinks né! Mas beleza…

Até aí eu só sabia que estava no hospital, mas em qual parte dele eu não tinha ideia. Perguntei as horas, eram por volta de 8 da noite, ou seja, a cirurgia tinha ido desde cedinho até aquele horário. Não sabia quais os aparelhos que me mantinham bem, como era o “quarto” ou nada do tipo. Minha mãe e meu pai entraram chorando na sala no auge de uma gargalhada e ficaram sem entender o que havia rolado ali, me entregaram meus óculos, o que foi um alívio, e conversaram comigo por poucos minutos até o fim do horário de visitas.

Com a luz acessa pude ver um pouco aonde estava e os milhões de aparelhos aos quais eu estava conectada.  A UTI era MUITO diferente do que eu imaginei. Eu estava em um quarto de vidro com um enfermeiro de plantão há poucos passos de mim, uma tv de 566699933 polegadas na minha frente e outra do lado fora com meu sobrenome ESCRITO ERRADO e meus sinais vitais. Me distrai tanto que esqueci daquele cano gigante no meu nariz, que tinha um nome de sonda nasogástrica… Uma coisa chata demais, mas que é MUITO importante quando se está com a barriga inteira recém operada, pois ela é a responsável por sugar o suco gástrico e evitar qualquer ânsia, tosse ou vômito, pois o esforço faria a barriga abrir! (ui que nojinho!)

Bom vamos a situação da criança na UTI: a) Meias de compressão infláveis para não dar embolia, que tinham um ciclo único para encher e desencher, produzindo uma sinfonia do demônio que demorou meses para sair da minha cabeça. b) Um cateter na coluna ligada a bomba de morfina fechada em uma caixa com senha, alarme, pisca pisca, sirene e etc… enquanto os enfermeiros ficavam monitorado quantas vezes eu apertava o botãozinho para receber a morfina. Descobri depois que só funcionava a cada 15 minutos, então as vezes seguidas que fiquei apertando para ver se funcionava mesmo foram em vão… eu não sentia nenhuma dor até então. c) Cateter no pescoço com mil saídas diferentes parecendo isso

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Esse negócio balançava mais que o relógio do sinhozinho Malta e cada boca era ligada em umas máquinas muito doidas. d)Acessos venosos nos dois braços; e) A sonda nasogástrica, f) sonda urinária; g) dreno no abdômen h)medidor de pressão; i) monitoramento de batimentos e j) um oxímetro esmagando meus dedos. Muitos podem achar que eles exageram nos cuidados, mas a recuperação que tive foi perfeita.

Duas vezes ao dia faziam raio X do pulmão e tiravam amostras de sangue. Eu ficava perguntando toda hora quando iam tirar a sonda nasogástrica de mim, até que no fim do segundo dia vieram tirar. Cara, imagina estar acordada e tirar algo que ia até seu estômago… Se tem problemas com sangue ou coisas do tipo pule essa parte, porque quanto conto algo, gosto dos detalhes. Eles puxam a sonda devagarinho e você sente um cano saindo de você, foram 3 puxadas para sair tudo e no fim ficou na minha boca um gosto de catarro misturado com sorine, mas eu finalmente estava livre da única coisa que me incomodava.

Fazia fisioterapia 3 vezes ao dia e ao fim do terceiro dia não precisava mais tomar banho na cama, porque conseguiram me levar até o banheiro particular da minha casinha de vidro (santo A.C Camargo!) e pude ver pela primeira vez o tamanho da incisão. Era gigante!! Mas logo já me distrai com a situação constrangedora que era de pessoas estranhas me darem banho. (y)

O mais legal da UTI era a cama,  que aonde eu me mexesse, ela inflava para dar suporte, imagina se isso não foi um dos meus passatempos nos 3 dias de UTI.

Eu meditei e rezei muito nesses dias, porque não conseguia acreditar que tinha feito uma cirurgia enorme, com alto risco de morte, estava na UTI tranquila, sem dor e me divertindo assistindo CNN e TBS como se estivesse de férias.

Para quem não sabe, na UTI a gente fica peladão só coberto com um lençolzinho, então todo médico que chegava para me ver tirava o lençol para ver como o corpo estava reagindo, quando não vinha com a equipe inteira de residentes da cirurgia oncológica, tirava o lençol e dava aula comigo pelada lá. Eu sorria né, ia fazer o que?!

Ao fim do terceiro dia meu enfermeiro preferido do mundo Cauã ❤ entrou no quarto, para me dar a notícia que eu sair da UTI a noite. Eu queria levantar e correr para abraçá-lo, porque ele me fez companhia, cuidou de mim e me fez rir muito quando muitos estariam chorando. Eu iria para o quarto com toda a aparelhagem menos a morfina. #chatiado

Então, para sair de lá eu  tinha que tirar o cateter da coluna. Meu povo, foi a maior dor da minha vida. Era uma dor tão insuportável que só uma lágrima caiu dos meus olhos, porque travei pela dor. Era um mini cano de metal costurado na minha coluna, mano!!! Mas mesmo assim passaria por tudo de novo se fosse necessário, o mesmo digo a respeito da sonda nasogástrica.

Me colocaram na cadeira de rodas e na saida da UTI pude ver como era legal aquele lugar. Muita gente sendo super bem cuidada, inclusive uma pessoa, a qual a imagem eu tenho ainda viva na minha mente, que não dava para saber se era homem ou mulher, jovem ou velho, pois estava parecendo um cadáver, mas tinha na cabeça um gorro delicadamente tricotado. Enquanto eu sai dali com todas as esperanças de retomar a saúde, aquele irmão provavelmente teve a UTI como sua última estada.

Mas o show não podia parar. Enxuguei as lágrimas, olhei para frente e fui enfrentar os desafios que ainda me aguardavam.

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