Me, myself and a cancer: episode 4

“Manda todo mundo se ferrar!” dizia ela ao telefone. Conversamos por alguns minutos e ela me tirou do fundo do poço que eu estava. Falei que minha casa parecia pizzaria de sábado a noite de tantas ligações, que as pessoas já estavam me enterrando antes de morrer, que estava muito brava com tudo e etc. Foi um encontro de almas. Duas pessoas que nunca trocaram mais que duas palavras, conversavam como se conhecessem há séculos. Ela ressurgiu na minha vida de uma hora para outra, mas seria peça chave para o meu futuro. Como eu poderia saber que na minha família paterna havia uma pessoa daquela com quem eu nunca convivi, quanto tempo perdido! Uma prima, mas na verdade uma segunda mãe.

Desliguei o telefone e comecei a me reerguer, aos poucos, mas eu queria passar por tudo aquilo da melhor maneira possível. Peguei os resultados da biopsia da cirurgia e fui discutir com os médicos qual a medida que tomaríamos. Eles escolheram 6 ciclos de quimioterapia a cada 21 dias.

No dia que voltei dessa consulta eu chorei de tristeza e minha família chorou junto. Ficamos sentados chorando igual bebês por horas, não sabíamos como lidar com aquilo. Como poderíamos viver com uma desgraça dessa magnitude na família? O que diríamos aos outros?  Qual seria nossa nova rotina? E seu eu morresse, como superariam isso? Ah, eram tantas as perguntas sem resposta e NADA que nos dissesem poderia aliviar a nossa dor. O que posso dizer que ajuda, é saber que nossa família e amigos estão a nossa disposição, para tudo que precisarmos. Uma simples ligação ou recado dizendo “Oi, conte comigo” valia e vale muito mais do que ligações extensas, chororô e frases do tipo “Confia em Jesus”.

Aliás, aqui preciso entrar no mérito da religiosidade. Eu não sou do tipo de pessoa “Jesus te ama”, na verdade, nunca fui. Cristã e espírita de berço, busquei sempre manter minhas crenças circunscritas a mim, meus evangelizandos e alguém que me fizesse uma pergunta. Acho triste e sem educação, pregar para quem não quer saber sobre aquele assunto, mas, infelizmente, pregaram muito na minha cabeça quando souberam que eu estava doente. Chegaram até a entrar na minha casa, com eu em uma tristeza profunda, para me dizer que eu estava doente, porque era espírita e não da religião da pessoa, acrescentando ainda, que se eu assistisse um programa de determinada denominação religiosa, Deus me curaria. Naquele dia eu tive vontade, e gostaria de voltar no tempo, para dizer para aquelas pessoas que a única cura que precisava ser feita por Deus ali, era a da ignorância delas.

Quando não é o discurso religiosista é o “você é forte, vai superar isso”. Mano! É de câncer que estamos falando não de algo comum do dia a dia. Ter câncer é complexo, passar por ele sem ficar doido não é uma questão de ser forte ou não, tem a parte física, emocional e espiritual da coisa! Sempre vale o clássico, se não for falar algo bom, fique calado. (y)

Divagações a parte, vou voltar a história.

Devido a especificidade do meu câncer e idade incomum, decidimos pedir outra opinião médica. Íamos para Curitiba, consultar com um médico bem conhecido, mas acabaram me indicando o Hospital A.C. Camargo em SP. Entretanto, como minha família pagaria  por um tratamento em um hospital daquele porte? Eu precisava de tratamento específico e minha cidade não dava o apoio, então como o plano de saúde se recusou a pagar, tivemos que recorrer a justiça e exigir, através de uma liminar judicial, que o plano de saúde, que eu paguei durante 21 anos quase sem usar, arcasse com a conta do hospital.

Fui então para São Paulo com o meu coração nas mãos e todas as esperanças do mundo. Ainda sentindo as dificuldades da operação de outubro, chegamos a cidade e fui recebida com todo amor do mundo. Tanto carinho e mimos das minha primas e da funcionária da casa delas! #voltadonaneuma

Se com a prima mais velha o santo bateu, com as filhas dela então nem se fala! Se não tivesse ficado doente não ia ter qualquer contato com elas, o que seria uma perda muito grande, afinal não tem coisa melhor na vida do que amar e ser amada.

Mas chegou a hora de partir para o hospital para a consulta com a oncologista. Se você nunca entrou no hospital A. C Camargo, pode não acreditar no que digo, mas juro que é verdade. Aquele lugar é um sonho, é lindo e parece um shopping. É mais limpo que qualquer lugar que já fui e com funcionários e voluntários super prestativos e educados. Só perdem nesses quesitos para a equipe de secretárias e de enfermagem que cuidam de mim aqui em Maringá, o plano de saúde é uma bosta, mas os funcionários uns anjos! O ambiente importa muito quando se tem que passar muito tempo hospitalizada e aquele lugar nem hospital parece. Cheguei lá e procurei o Dr. House e a Dra. Grey andando pelos corredores, porque me sentia em um seriado médico.

Eu estava deslumbrada com o lugar e com a beleza dos residentes e, pelo menos por algum tempo, me esqueci que estava ali a negócios.

Primeiramente, tive a oportunidade de contar tudo que já havia acontecido a um residente (um gato, meninas!) da equipe. Depois de muitooo tempo explicando a situação, fui levada até a médica para que ela desse uma direção ao meu tratamento, se o que haviam feito em Maringá estava bom e se era para eu começar com os ciclos de quimio.

Ela pediu alguns exames e a revisão de lâmina dos tecidos da primeira e segunda cirurgia, pois se o tratamento ia acontecer lá, eles precisavam ter certeza absoluta com o que eles estavam lidando.

Voltei a Maringá para fazer tudo. Eu e minha mãe, lindas e formosas fomos ao laboratório para pegar os tecidos e enviar para SP. Pedimos então as cópias das TRÊS biópsias realizadas. A atendente nos entregou duas, dissemos que faltava uma, já que tinham sido feitas duas análises do primeiro material. Sabe da surpresa pessoal? No sistema do laboratório salafrário continha que o material 1 tinha sido analisado apenas UMA vez, e adivinhem qual das duas biópsias tinha ficado registrada? A segunda que dizia que eu tinha implantes de carcinoma e não a primeira que estava incompleta, dizendo que eu não tinha nada. Espertinhos não?! Sorte nossa, que guardamos a primeira biopsia em papel timbrado do laboratório da primeira vez que recebemos, o que nos dá respaldo para chamá-los de desonestos e enganadores.

Revoltas a parte, uns 15 dias depois estava de volta a SP. Com tudo em mãos a médica oncologista me deu a única notícia que eu não queria ouvir: era necessário o estadiamento da doença e a retirada completa do útero, ovário, apêndice e tudo mais que tivesse com implantes através de uma nova cirurgia, chamada citoredução, que é um nome médico para “abrir você do início ao fim do abdômen, tirar os órgãos para fora, olhar e depois fazer uma limpa por dentro”.

Conforme fui escutando aquilo, me deu uma fraqueza e minhas pernas bambearam. Eu mal tinha saído do centro cirúrgico e já iam me por lá de novo! Segurei o choro, porque não queria dar show na consulta e esperei até chegar no corredor para desabar. E daí algumas lágrimas cairam dos meus olhos, porque eu não queria enfrentar o sofirmento que já havia vivido duas vezes, eu estava pronta para ir para a quimio e agora me dizem que eu vou fazer outra cirurgia?! Que tipo de brincadeira é essa?

O mais surpreendente é que sempre achei os médicos muito frios e sem sentimentos, mas não a minha onco de SP. Ao começar a chorar baixinho no corredor, ela saiu da sala e me abraçou forte com muito carinho, dizendo que eles iam fazer de tudo para me ajudar, que eles tinham estrutura e capacidade para me dar o que tinha de melhor.

No dia seguinte, fui conhecer o cirurgião, o Dr. F, vou chamá-lo assim. Ele me explicou o que ia ser feito e veio com um papo de UTI. Eu entrei em parafuso, UTI não! Deus que me perdoe de ficar em um lugar desse, cheio de gente sofrendo. Eu implorei para não me deixar lá, ainda mais entubada e consciente, mas eu, mais uma vez, não tinha escolha.

Como se tudo isso não bastasse eu ainda tinha que lidar, de um dia para o outro, que eu nunca ia poder ser mãe. Me ofereceram todo o processo para congelar os ovos e utilizá-los no momento oportuno. Eu recusei de pronto, por diversos motivos. Primeiro, que se não fosse da minha barriga o filho não ia ser meu; Segundo, que a minha doença é genética e não queria propagar a mutação; Terceiro, se alguém não quiser casar comigo por que não posso ter filhos biológicos, essa pessoa queria uma parideira e não esposa, resolvi não correr o risco de trombar com alguém assim; Quarto, custa em torno de R$ 1000 por mês para os ovos ficarem no banco. Quinto: eu não sabia nem se ia sobreviver, que dirá ter filhos! Conflito resolvido para mim, mas os médicos disseram que eu ia me arrepender de não fazer, mas eu preferi correr o risco.

Voltei a minha cidade, para me preparar para a cirurgia. Dessa vez eu ia morrer, tinha certeza, dessa eu não ia passar, como alguém resiste a uma ciriguia enorme daquela!

Daí minha gente, como eu ia, na minha cabeça, morrer mesmo, decidi fazer tudo que eu tinha vontade. Não, eu não vivi de drogas, sexo e rock n’ roll, eu só queria consertar uma coisinha que estava errada na minha vida. Decidi pedir desculpas a uma pessoa por quem eu nutria imenso carinho e que eu tinha pisado na bola várias vezes. Nós ficamos bem e nos desintendemos mil vezes, mas eu não podia morrer e deixar isso por fazer. Engoli meu orgulho e escrevi um texto a ele explicando tudo que tinha acontecido no ano todo que não tinhamos nos falado, abri meu coração e finalizei dizendo que gostaria de conversar e dizer algumas coisas.

É só falar que vamos morrer que todo mundo começa a andar na linha perceberam?! Incrível esse método da vida de nos colocar na linha.

Nos acertamos e a amizade antiga evolui para namoro. O que tínhamos a perder? Nada né!

Dar “tchau” para tudo foi muito difícil, de quebrar o coração mesmo, mas era precisava seguir em frente e morrer com dignidade. Eu não tinha medo de morrer mesmo, fiquei até feliz que ia, pelo menos, terminar a vida com tudo resolvido.

Na hora da internação, o mesmo processo de sempre. Malinha, pijama novo, unhas impecáveis, um aparato de filmes, seriados e várias edições do evangelho, claro. Fui informada que só tinha quarto na ala nova do hospital, mesmo o plano de saúde ter pago um quarto comum, pensei: “melhor para mim né”. E daí minha gente eu cheguei na ala nova. Logo no início, uma sala de estar phinérrima e quando fui conhecer o quarto, cai para trás! Eu ia passar meus últimos dias de vida em um palácio com vista privilegiada! Qual foi a primeira coisa que fiz? Brincar com a cama automática, fiquei horas apertando todos os botões e vendo o que ela fazia! Idiota, mas muito divertido. Tirei fotos fazendo inveja para os amigos, da minha “suíte presidencial”.

Mas a noite foi chegando e com ela as mil preparações do corpo para a cirurgia, foi sofrido mesmo ter que tomar todos aqueles medicamentos e fazer aquela lavagem desgraçada, coisa que nem a pior pessoa do mundo merece.

O dia amanheceu e naquele fatídico 11 de dezembro, eu estava com a minha vida por um fio pela terceira vez.

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