Me, myself and a cancer: Episode 3

Hospital do câncer, 04 de outubro de 2013, noite.

Escutei a voz do cirurgião, mas eu estava em outro plano. E daí escutei um grito. Um grito muito alto e desesperado. Reconheci de pronto, era minha mãe. Sabia que aquilo era o indicativo da seriedade da minha doença. Sabem aquela cena de filmes em que o personagem se projeta para o futuro e vê diversas cenas? Foi isso que me aconteceu. Eu me vi muito debilitada, vi minha morte e a vida dos que me cercavam, sem mim… tudo em um segundo. O pensamento da morte foi muito presente durante um longo período na minha mente. Uma junção das minhas noções sobre a doença e é lógico da tv, seriados, filmes e notícias.

Depois me contaram do parecer do médico. Resumindo foi: “Abri, a coisa estava feia, tirei uma amostra e fechei.” É minha gente, eu tinha implantes de carcinoma (câncer) de grau 3 A. Ele disse que após a biopsia do material retirado, pensaríamos no que poderia ser feito.

Quando acordei mesmo, estava calma. Para mim, meu futuro já estava traçado, então quanto mais calma eu ficasse, melhor para mim.

Fiquei conversando normalmente com a minha avó, quando um enfermeiro entrou no quarto para aplicar aquela injeção para a coagulação, tudo normalérrimoooo. De repente, senti a garganta seca, um calor muito grande e comecei a ficar sem ar. Não lembro de mais nada. Acordei no dia seguinte e fui entender o que aconteceu. Tive uma crise de algo inexplicável para os médicos, entretanto me contaram que eu gritava MUITO alto, eu gritava por água e que me tirassem daquele poço que eu estava, (detalhe, eu estava em uma cama de hospital (y)). Até hoje o enfermeiro não pode me ver que ele muda de rua, pois logo após a aplicação que ele realizou eu dei uma pirada, ele achou que tinha me matado, dizem que ficou transparente! Fiquei um bom tempo conhecida lá no Hospital do câncer por esse incidente, trágico, mas que hoje morro de rir toda vez que esse enfermeiro arregala os olhos quando me vê.

Fiquei um tempo hospitalizada e foram momentos de sofrimento emocional atroz. Conheci o que é desespero, a ponto de pensamentos a lá “vamos pular da janela e acabar com isso” passarem diversas vezes pela minha cabeça. Mas daí que eu ficava mais desesperada, porque o que adiantava matar o corpo ( e enfrentar as consequências de um suicídio) se a dor era no meu íntimo. Eu não tinha como fugir, ela ia me perseguir aonde eu fosse.

Quando voltei para casa, entrei em uma depressão profunda. Até o dia 16 de outubro eu chorei e me fechei a tudo, “fiquei de mal” do Universo. Ficava horas sentada no fundo da minha casa olhando para parede e chorando. Eu só queria entender o que havia acontecido no meu passado (enquanto Espírito) para que eu precisasse passar por algo assim. O que eu precisava aprender? Será que anos de trabalho no bem não contaram para nada? Eu tinha matado muita criança, feito muito aborto mesmo para ter algo no sistema reprodutor feminino. Pensei  nos maiores absurdos possíveis. Não que meu passado deve ser bonito de ver, mas se tem uma coisa que aprendi sendo espírita é que bom senso vem em primeiro lugar, ou seja, feito ou não, não importa mais, o que importa é o que  faria daquele momento em diante. Mas confesso que briguei com Deus, Jesus, meu protetor e o resto da espiritualidade amiga. Mandei todo mundo para a PQP mesmo, encarnado e desencarnado.

Intocável, escolhida, especial e cheia de privilégios. Isso descrevia a real condição da minha intimidade. Todo mundo podia ter câncer, mas a lindona aqui não. Minha vizinha de porta, enquanto eu sorria, lutou contra o câncer e quando ele bateu na minha porta eu achei injusto. Qual a lógica, Brasil? Todo mundo pode ficar doente menos a gente?

A doença bate na porta de todos, sem qualquer distinção. Não é punição, vingança divina, mas algo que nosso corpo material está suscetível a passar, fim de papo. Uns morrem de acidente, uns de velhice e outros de câncer. Mas batendo aquele papo quase “de frente com Gabi” confesso, que depois do primeiro susto que vamos morrer, você tem mais medo de sofrer do que da morte em si.

Filosofias à parte, voltemos a história.

Nesse pós-operatório eu passei muita dor e entendi o que as mulheres que fazem cesárea passam. Tive tudo de um pós parto, uma cesárea, dificuldade de locomoção, inchaço, o medo de achar que a barriga ia rasgar se tocassem nela, mas o mais precioso da maternidade eu sai do hospital sem. E curioso que essa sensação me acompanhou muito nessa época, parecia que tiraram algo de muito precioso de mim, me fizeram passar por tudo de ruim, mas não me deixaram a parte boa para levar para casa.

Esse foi o pós operatório mais difícil de todos que passei. Eu urrava de dor e não havia remédio que aliviasse (conheci a morfina só na terceira cirurgia –”). Eu não conseguia me movimentar e ainda para ajudar, tive uma inflamação grande na cesárea e na incisão no flanco esquerdo, que foi mexida de novo. Um dia acordei me sentindo dentro de uma fogueira de tão quente que meu corpo estava, além de toda encharcada de algo, achei que tinha feito xixi na cama e coloquei a mão do meu lado e na minha barriga, chamei minha mãe e quando ela acendeu a luz eu vi minha mão toda ensanguentada e a cama inteira cheia de sangue. Eu fiquei desesperada, comecei gritar e chorar para que não me deixassem sangrar até a morte. A dor que eu passava era por conta dessa inflamação, então, esse vazamento foi meu corpo mandando embora tudo aquilo ruim, me livrando de um procedimento, que não faz anestesia, de enfiar agulha enormes na minha barriga e sugar tudo aquilo.

E o mais impressionante foi o dia seguinte. Não tínhamos contato nada a ninguém, quando minha tia liga bem cedinho e diz que teve um sonho comigo. Sonhou que eu estava deitada em cima de uma fogueira e que uma equipe de índios e médicos assessoravam na retirada de uma substância do meu abdômen. Mais tarde recebo outra ligação. Dessa vez de uma amiga, me dizendo que sua tia, que tem a mediunidade bem aflorada, havia visto a mesma cena.

A inflamação não parou por aí. As dores voltaram e dessa vez era uma queimadura por dentro. Um dia elas ficaram insuportáveis, coloquei a mão aonde mais doía e fechando os meus olhos, desejei com todas as minhas forças que ela vazasse também, porque não queria ter minha minha barriga furada diversas vezes. Me levantei e fui tomar banho. Entrei no chuveiro, molhei o cabelo e quando olhei no chão do box havia sangue e muito pus. Chorei de emoção e comecei a fazer uma dancinha da vitória na minha mente, porque o corpo não ia HAHAHAHAH. Ahhh que alegria eu desfrutei naquele momento!

No 16 de outubro era meu aniversário e nem o cupcake de nutella com velhinha me animou, e para nutella não animar alguém, dá para ter uma ideia da situação. Eu me recusei atender qualquer telefonema ou visita até esse dia. Por melhor que fossem as intenções das pessoas, saber que elas estavam preocupadas comigo não me ajudava em nada, aliás eu tinha muita raiva de todos, porque eles iam me ligar, falar que sentiam muito por eu estar doente, ia desligar o telefone e voltar para sua vidas normais, com saúde e alegrias.

Como a vida estava fazendo aquilo comigo, era nisso que eu pensava. Eu que estava de malas prontas para ir estudar no exterior, com o meu estágio em tradução começando, o trabalho voluntário caminhando bem, um relacionamento recém terminado, amigos, emprego…uma vida normal. Acreditei que todas as possibilidades de futuro, sonhos e realizações estariam liquidadas. Já comecei até me mexer para deixar tudo pronto para quando eu partisse. Arrumei algumas coisas  mais especificas para deixar para quem amava. Mas foi nesse momento que percebi como amei viver, como levei uma vida correta, me esforçando sempre e que eu não me arrependia de nada, poderia sair dessa vida com a paz de espirito daqueles que sentem que fizeram um trabalho bem feito.

Mas naquele fatídico 16 de outubro, por uma força maior, eu atendi um telefonema, mal sabia eu que aquela ligação me salvaria.

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