Me, myself and a cancer: episode 2

Eu comecei a escutar tudo a minha volta, mas não conseguia acordar, só me lembro de escutar alguém falando: “como acha que ela vai reagir?”. Algum tempo depois me esforcei muito e consegui acordar. Fui relutante em perguntar o que tinha acontecido, como a cirurgia havia ocorrido, mas me enchi de coragem e perguntei a minha mãe. Então ela  me contou que a cirurgia tinha corrido tudo bem e que eu ficaria bem, mas quando o médico (meu gineco) olhou o meu ovário esquerdo viu que o suposto cisto era uma massa negra, de aspecto muito estranho e que envolvia todo o ovário.  Até aí eu estava acompanhando e entendendo tudo sem qualquer abalo e daí  minha mãe disse: “por isso tiveram que tirar o ovário esquerdo por completo”. Só me lembro de um buraco muito grande se abrir no meu peito, porque sabia que isso reduziria e muito as chances de engravidar um dia.

Eu chorei muito, mas minha mãe não entendia por que. Quem me conhece sabe o quanto eu nunca gostei de criança, nunca quis ser mãe como muitas sonham e planejam desde cedo, cheguei a brincar que preferia tirar o útero do que ter um ser me enchendo o saco. Mas querendo ou não, vamos crescendo e o instinto materno vai aflorando, então na época da cirurgia eu não tinha mais aversão a criança, até que aprendi as amar (E MUITO) através de dois primos que são crianças fantásticas.

Minha mãe (que entrou na menopausa na casa dos 20 anos como eu) me acalmou e continuou dizendo que a cirurgia demorou bem mais, mas que todo o material retirado foi para análise e que o médico tinha dado certeza que como foi tudo retirado, tudo estava resolvido, mas para dar a palavra final esperaríamos o resultado da biópsia.

A recuperação da cirurgia foi bem chatinha (a mais fácil de todas que fiz, mas complicada) por dois motivos. Primeiro que cirurgias por videolaparoscopia injetam muito ar na barriga o que te deixa com uma barriga igual de grávida, só que por causa de gases! Parece que tem um monstro andando na sua barriga ou um bebê te dando chute no estômago. Mas a gente até na desgraça acha graça, riamos muito em casa com o “esvaziamento involuntário dos gases” que produziam sinfonias muito originais. Segundo, foi que houve a necessidade de uma incisão no flanco esquerdo, o que me limitou os movimentos do corpo e era bem desconfortável.

O tempo passou, eu me recuperei e voltei a vida normal, emprego, fim do bacharelado em tradução e etc.

Quando saiu o resultado da biopsia voltei ao médico preocupada, já que li a palavra “tumor” na biopsia. Nem pensei em câncer já que o meu CA125 (marcador tumoral de útero e ovário) estava dentro do limite normal.

Na biopsia estava escrito: tumor seroso boderline (tumor seroso de baixo grau), cistos foliculares e margens cirúrgicas livres.

Eu não entendi nada daquilo, mas me atrevi a procurar na internet, aliás NUNCA FAÇAM ISSO!!! Você vai ler coisas bem gerais e achar que tem todas as doenças do mundo, acaba se desesperando e sofrendo a toa.

O médico leu e explicou que um tumor boderline é uma fase de transição entre o tumor benigno e maligno, ele está em cima do muro. Ele fechou a pasta e me mandou para casa, dizendo que eu não tinha mais nada, já que o tumor boderline, quando retirado cirurgicamente, deixa de existir e o problema se vai. Comemorei muito, afinal eu não tinha nada!

Na saída, (estávamos na porta já) minha mãe (iluminada pelo Senhor!) perguntou: “Dr, acha que poderíamos procurar uma oncologista?! Mesmo que foi retirado, era um tumor né.” Ele nem ligou e falou que se quiséssemos podíamos sim, mas não era necessário.

Demorei 2 meses para ir na oncologista, não tive pressa alguma.

NUNCA nesse meio tempo pensei que pudesse estar doente, afinal com eu, boa filha, boa aluna, atuante no movimento espírita, evangelizadora há anos, honesta, trabalhadora, boa amiga, boa cidadã, que nunca pegou nem resfriado, que nunca teve uma cárie no dente poderia ter qualquer doença. Eu me achava intocável… bom, a vida foi me mostrando que NINGUÉM está livre de passar por nada e que o câncer se manifesta em gente de todo tipo, simples assim.

A oncologista entrou no consultório e foi direto na minha mãe perguntando o que a trazia ali, eu ri e falei que estávamos ali por mim, ela achou que era piada. Expliquei tudo que havia acontecido até ali, ela concordou com tudo que foi feito e pediu para ver a biópsia do material retirado. Ela leu e disse: “me dá a próxima página, por favor” eu respondi que não havia outra página, só aquele laudo de 3 linhas. Ela ficou estarrecida e indignada de como uma biopsia de um tumor daquele tamanho tinha só 3 linhas e nenhuma análise profunda daquele material. Pegou o telefone na minha frente, ligou no laboratório e meteu a boca, falou com a  responsável (e única patologista que ela confia) e exigiu que ela mesma fizesse a revisão de lâmina. Por fim, ela concluiu que por aquele resultado não poderia me dizer que eu não tinha mais nada, levantando até a possibilidade de haverem outro tumores na cavidade abdominal.

Minha cabeça girou e girou e girou. Dei um grito falando: “O QUE?!” e continuei: “aquele médico me mandou ir viver minha vida normal, me garantiu que eu não tinha nada, agora eu chego aqui e você me diz que essa biópsia está errada ou mal feita?!”

Foi um auê, minha gente.

Esperei ansiosa a revisão que agora tinha uma página bemmmm preenchida e com ela o choque: tumor seroso proliferativo atípico com CARCINOMA MICRO INVASIVO; ausência de rompimento de cápsula. Eu entrei naquele consultório sem câncer e sai com câncer.

Eu não podia acreditar no que estava acontecendo, eu tinha câncer. Fui alvo de um erro fatal, que poderia ter me custado a vida. Me mandaram para casa dizendo que eu não tinha nada, enquanto dentro de mim o câncer se proliferava, tudo por um erro do patologista e omissão médica.

Me enchi de coragem e perguntei qual era o próximo passo. Fui encaminhada para um cirurgião oncológico, para biopsiar a cavidade abdominal em busca de mais focos da doença.

Entrei no centro cirúrgico dia 1 de agosto de 2013 pela primeira vez… dia 4 de outubro eu estava de volta ao hospital para um procedimento que diria a minha real chance de viver.

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