Transplante de útero: análise e reflexão

“Você leu sobre o transplante de útero né?!”

Foi isso que ouvi da minha médica no primeiro dia de quimioterapia em janeiro. Já havia lido sobre a pesquisa e o Fantástico fez o serviço de colocar isso como salvação ou ainda como “prêmio de consolação” para as mulheres que não podem gerar um bebê por não terem útero.

Respondi a minha oncologista que tinha lido, mas não tinha intenção nenhum de surtar e correr para a Noruega, onde as pesquisas estão sendo feitas de forma mais efetiva, até porque a pesquisa é feita com mulheres que nascem sem útero ou que tiveram o útero retirado, mas seus ovários são saudáveis…. Então nem que eu quisesse muito poderia fazer o transplante.

Ela respirou aliviada dizendo: “que bom que sabe que isso não é simples assim”.

Ela me esclareceu então todos os riscos envolvidos nesse procedimento ainda EXPERIMENTAL. O risco de complicações, rejeições, deformidade do feto, aborto e acima de tudo câncer são altíssimos! Ela, enquanto profissional da saúde, não era a favor de forma alguma do procedimento.

Mas o tempo passou e Vincent venho ao mundo. Ele é o primeiro bebê de transplante de útero do mundo. A notícia estourou em todos os sites de informação e nas redes sociais. Pensei na mesma hora: alguém mandando o link da notícia para mim em 3, 2… E é claro que viria acompanhado de frases mal construídas e cheias de pena “Uma esperança para você”, “você ainda tem chance” e etc.

Sim, as pessoas são indelicadas e sem noção. Pena e dó são sentimentos horríveis, na minha opinião. Compaixão que é MUITO diferente deveria sim ser sentida. A compaixão é pró-ativa, cuidadosa e cheia de amor.

Mas indignações a parte, vamos AOS FATOS.

O que os médicos divulgaram até agora?

A revista científica The Lancet, vai trazer os fatos legítimos no seu próximo número, mas os médicos deram uma entrevista a BBC, dando mais detalhes sobre o transplante inovador.

Até agora 9 mulheres se submeteram ao transplante, mas o caso divulgado hoje é o primeiro a obter sucesso.

A doadora do órgão foi uma amiga da família de Vincent que aos 61 anos, e na menopausa há 7,  decidiu ajudar com a doação de seu útero.

O que os veículos de informação do Brasil não contaram a ninguém:

-Foram necessários o uso de drogas que reprimem o sistema imunológico para evitar a rejeição do órgão, sendo estas drogas causadoras de danos a vida da mãe a longo prazo;

-Após um ano do transplante eles decidiram usar os ovos congelados para a fecundação;

– Vincent nasceu prematuro (32 semanas), porque a mãe desenvolveu pré – eclampsia e os batimentos do coração dele estavam  irregulares.

 Vamos ao choque de realidade necessário:

 Dois outros grupos tentaram fazer o transplante e não foram bem sucedidos. No primeiro, o órgão foi retirado as pressas após 3 meses, pois o órgão adoeceu. No segundo, o transplante até funcionou, mas o organismo da mulher estudada era incapaz de dar seqüência na gravidez, resultando em abortos consecutivos.

Ou seja amigas e amigos, não se animem tanto com essa notícia.

 O tiozinho que organizou a bagunça ou avanço tecnológico (decida seu ponto de vista) Prof. Mats Brannstrom, disse que a Noruega está em festa com o sucesso da pesquisa até aqui.

“That was a fantastic happiness for me and the whole team, but it was an unreal sensation also because we really could not believe we had reached this moment.

“Our success is based on more than 10 years of intensive animal research and surgical training by our team and opens up the possibility of treating many young females worldwide that suffer from uterine infertility.”

A cirurgiã ginecológica Liza Johannesson, afirma que a pesquisa traz a esperança a mulheres e homens que acreditavam que nunca poderiam ter filhos.

A BBC ainda destaca que para os estudiosos ainda há duvidas a respeito da segurança e efetividade do procedimento.

O Dr. Brannstrom e sua equipe estão trabalhando juntos com mais 8 casais, o que poderá dar uma ideia se o procedimento poderá ser mais utilizado.

A opinião talvez mais esclarecida até agora é do Dr. Allan Pacey, chefe da British Fertility Society, que em resposta a BBC achou brilhante a iniciativa, mas relembra que a questão mais importante é a segurança da saúde da mulher e o tamanho da confiança que se pode ter no procedimento.

A experiência ensina

Óbvio que eu ia amar ter filhos biológicos. A oportunidade até surgiu antes da minha terceira cirurgia, quando os médicos queriam porque queriam me convencer a congelar os ovos para que um dia pudesse fecundá-los na barriga de uma voluntária, o que para mim era inimaginável. Se eu não pudesse do modo tradicional, iria ter meus filhos de outro jeito.

Mas confesso que entendo o drama de nós mulheres que são inférteis, independente do motivo. A questão é delicada, merece respeito e carinho ao ser tratada. Então o discurso “mas você pode adotar”, é a pior coisa que se pode falar. Não tente concertar algo que não tem concerto, por favor, sociedade.

 Passaremos por todo um processo até entendermos que nosso amor de mãe vai ter que ser criado de forma diferente, que não veremos nossa barriga crescer, que não poderemos ver as semelhanças físicas com nosso filho, que teremos que talvez enfrentar o fim de relacionamentos porque não podermos ter filhos ou o preconceito da sociedade e da família porque nosso filho é de outra raça ou etnia.

 Todo o processo da adoção é demorado, sofrido e complicado. Sabem que só falo do que passei. Meu irmão é adotivo e minha mãe passou por uma gestação externa para tê-lo, não foi nada fácil lidar com tudo.

 Então na dúvida do que falar, SE CALE PELO AMOR DE DEUS!

Acho que vou lançar essa campanha, alguém apoia?

Notícia dada pela fonte oficial. (E não as versões simplistas sem nenhuma informação substancial de redatores preguiçosos)

http://www.bbc.com/news/health-29485996

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Um comentário sobre “Transplante de útero: análise e reflexão

  1. Apoio totalmente sua campanha: “Na dúvida do que falar, SE CALE PELO AMOR DE DEUS!” Faço isso há muito tempo!
    Parabéns pela clareza,consistência e sobriedade de seu texto!!! Adorei!

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